08/09/2010

Eu era o dinheiro!

Tive a felicidade de nascer em uma família milionária, então o dinheiro nunca foi problema. Na verdade ele era a solução! Mulheres, amigos, carros, bebidas... Tudo o que um jovem “descolado” precisava ele me dava sem precisar fazer esforço, era só abrir a carteira! Eu adorava esbanjar meu dinheiro para que todos me notassem. Tudo simplesmente bancado com a herança do meu avô. Eu nunca soube o que era trabalhar e conseguir as coisas com o próprio suor. Mas, pra quê? Eu era jovem, rico e bonito. Deus já havia me dado tudo. Seria perfeito se não fosse por aquela pedrinha.

Ela era um incômodo no meu coração. Chacoalhava o tempo todo provocando um vazio no peito. Desde que completei vinte anos ela não parava de me incomodar com uma sensação de solidão. Mas como isso era possível se todos me adoravam? Era só tirar R$50,00 da carteira e a alegria vinha ao meu encontro! Por que isso não fazia mais sentido? Antes, era só ir ao shopping gastar e eu já estava satisfeito. Por que isso não me dá mais alegria?

Um dia, tentando driblar a pedrinha, decidi comprar um Bugatti Veyron Pur Sang, o carro mais caro do mundo. É, pra mim o dinheiro era simples assim! Enquanto namorava o designer do carro a vendedora mais linda do mundo se aproximou:

- Posso ajudá-lo? - Ela disse com um sorriso que deixava seus dentes brancos amostra
- Sim. Eu vou levar esse caro! – Me senti um pavão em um ritual de acasalamento. Ela será minha em questão de segundos – pensei
- Ok! Em quantas vezes?
- A vista! - Um meio sorriso e uma cara de safado cairiam bem com dois milhões de dólares!
- Ok. Siga-me e farei o boleto

Silêncio mortal.

Enquanto ela saia para pegar os papéis, puxei seu braço fazendo-a virar em direção a minha boca armada para um beijo:

- Mas o que é isso! - Disse ela assustada
- Você não ficou interessada em mim?
- Não! - Ela foi crua.
- Você é lésbica? Um cara como eu, rico, e você não ficou interessada? – Prepotência. Esse era o meu charme
- Não. Eu jamais sairei com um cara que pensa que dinheiro é tudo. Posso ser pobre, mas tenho dignidade de conseguir com o meu trabalho o que minha família precisa – essas frases soaram como uma navalha cravada no meu coração. Alguns segundos de silencio saí do local, deixando-a perplexa e sem entender o porquê daquelas lágrimas em meu rosto.

Sentei na calçada da loja, mãos na cabeça, olhos vermelhos. Visualizei-nos naquele conversível. Eu na direção, ela brincando com o vento. Suas mãos em meus olhos, o cheiro das flores do campo, os diálogos e frases melosas de um casal apaixonado. Amor a primeira vista? Não sei. Mas foi gostosa a sensação de me imaginar no futuro com alguém em que realmente eu estivesse apaixonado. Mas naquele instante percebi que eu era o cara mais pobre do mundo. Eu só tinha dinheiro!

Foto

7 comentários:

Clara disse...

Que forte! Ele SÓ tinha o dinheiro... Essa história ilustra muito bem o tal clichê 'dinheiro não traz felicidade'. Ser desapegado é um dom que poucos têm, mas acho que esses sim são felizes.

Debbys disse...

Nossa, ficou muito com o texto!! Adorei!! E é aquela coisa, dinheiro é bom sim, mas ser o centro da vida não dá em nada... há coisa mais valiosas que a gente não pode abrir mão!
bjsss

Clara disse...

"Mas naquele instante percebi que eu era o cara mais pobre do mundo. Eu só tinha dinheiro!"

AMEI!!!

Italo Stauffenberg disse...

ótimo conto. que não deixa de ser bem real. parabéns. que faças uma boa participação nos projetos!

Romário Reat disse...

HUAUHUHAHUAAUHAUAHAUHA Eu achei engraçado tu conseguir abordar os dois temas (do blorkutando e do palavras mil) num mesmo texto. Muito foda.

Brunno Lopez disse...

A idéia é clássica, mas impactante.

Gêsa disse...

É assim que eu encaro essa relação dinheiro/felicidade, no fim das contas ninguém esta satisfeito.